participei de sua vida...brindei as madrugadas. Quis ser mais e menos ao mesmo tempo...te amei e amo como o
todo...o tempo se foi..o alcool secou...restou aquela melodia: saudade.
poesia sempre as recolho na frente do espelho quando choro e as lágrimas nao descem...
as cicatrizes sempre estão lá quando tiro a maquiagem que encarna meu coração...
Fui ouvir música, junto levei a distancia e a meio metro do caminho dancei como louca... Estava afastada do alcool e me restava brindar coca-cola, aquilo me afligia o coração e vi sua sombra na fumaça de cigarro e de medo que embrulhava meu estomago. Cogitei Nelson Rodrigues, Cartola e até Allan Kardec pra me explicar meu estranho impulso de querer-te de novo...assim foi indo até me entregar tremula as tuas palavras e a minha boca a sua... o passado ficou desbotado, a boca amarga virou doce, a sala não tinha mais ninguem...só nós, corpo e sentido... fumaça.
Tenho feito muitas caminhadas ultimamente, considero as ruas como nobre passatempo. Um dia desses fui até um presidio, tenho de voltar lá todas as segundas e sempre me surpreendo pela banalidade dos homens. Volto a dizer, a rua pra mim é mero passatempo, mas um vai e vem carregado de outros nomes, sexos e vaidades. Sempre me lembro de Platão ao entrar no pavilhão onde por duas horas, fico ( digo ficamos, somos uma equipe de 3 mulheres) aguardando com livros e materiais de arte, os presos chegarem para trabalharmos. É, as vezes surreal por que nos deslocamos alguns quilometros para falar de arte, de beleza, pra quem já na brutalidade,praticou a estética do desprendimento e da aniquilação. Ali guardado dentro da cela e do coração existem resquícios de homens, de dias que foram crianças e das tolices da juventude. Todos os homens, que compratilham as aulas, defendem o repensar, a escutatória ( assim como Rubem Alves) e o fim das lacunas preenchidas com o álcool.
É possivel perceber o cheiro e o gosto do arrependimento, da amargura e da culpa, assim como percebemos o cheiro de gente amontoada quando chegamos na entrada do pavilhão.Fica o ócio que pena na reconstrução e sedimenta o tempo também encarcerado. São homens, todos nós ali, no pátio do pavilhão. Eu carrego minha culpa, minha tensão em relação ao amanhã, as mágoas dos erros e me vejo neles também. As vezes vejo as sombras remedidas e algumas sementes de dente de leão que cismam livres, nos esnobando porque podem voar e tentar germinar naquele cimento sujo e federonto.
Os dias estão ficando cada vez mais pequenos e corridos. Os dias, meus, passam em regime de fome, explico: cada grão de segundos, cada gota de minutos e o peso das horas, vão, engolidos por mim, na correria da sobrevivência, agora penso mais na subvivência. Está dificil.
Pra mim, sempre só...Quero a eternidade do passado de memórias, mortas.
Meu filho cresce, logo,logo será um homem...Penso se não terá também a fome das horas, dos dias, do fim. Talvez sim, talvez não...Ele escreverá seu tempo, sua história.
As minhas foram quase todas ácidas e doce...agridoce.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Pensava em como foi duro tirar você de meu corpo, alma e coração. Doeu muito. Foram nove meses e alguns dias, durou mais que a gestação de meu filho,como um vício... Assim como o álcool, você exalou. Restou a ressaca como numa noite mal dormida e sofrida, como muitas que vivi a seu lado e que de nada adiantaram, amanheceram e o vazio ficou. Tão somente acordada agora vago na felicidade de quem encontrou no fim uma estradinha empoeirada e seca, mas quando vem a chuva fica fértil de novo. Após um longo e ressecado inverno. Olho para você no retrato digital, virtual e paralisado. logo ali postado no passado uma imagem agora sem sentido. Imagem só, corpo e amor que não existe mais.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu
mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer
entendimento."
Um dia desses ouvia uma música: "
guardo minhas lembranças num lugar seguro..." pensei muito sobre isso e
fui recordando: guardo minha lembranças no computador e em alguns CD's
e vi que sim, realmente ali, são lugares seguros, quase nunca ficam
expostas, como nos porta-retratos, se quando cismo vou lá "nos
guardados", nas lacunas virtuais e os consulto, vejo as fotos, olho os
espaços, os personagens e lá estão...como os deixei, mas a mim, nas
fotos virtuais, mudou; Em algumas fotos cresci, em outras morri, como
num mausoléu...estou ali, só a casca mumificada. Só um rosto, algumas
figuras que não reconheço mais, e outras que faço questão de esquecer.
Quando viro e me olho de novo...tudo mudou. Só silêncio... desligo o
computador;
quinta-feira, 29 de abril de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Na rua completei mais um ciclo...
terça-feira, 23 de março de 2010
No dia que deu sol, fiquei lembrando dos capítulos da minha vida...
lembrei-me também dos homens que amei e que admirei...
por isso é um dia bom de sol:
todos, os homens, todos eles,
que admirei...
não passaram de sombras...
que amei...transparentes
não existiram.
A história da menina que não sabia usar o telefone
Coralina era negra, aliás, quase negra, era uma espécie de mistura de cores: seu pai era mestiço de índio com negro e cigano, sua mãe mistura de índio, branco e mulato... Seus avôs: índios e negros...
Desde cedo cismava que podia ler o universo... Conversar com os animais, mais específico com os micos que bagunçavam as árvores da pequena casa que seu pai construíra num lugar remoto, periférico onde ela cresceu e viveu parte de sua vida.
Coralina via o mundo de modo diferente, pelo menos pra ela, viver na fantasia era bom, não precisava pedir nada, chorar por nada, era assim, dia e noite, dias e dias, anos e anos. Passou a infância querendo ser cientista, o primeiro passo das decepções.
Observava o mundo e as pessoas, primeiro olhar.
Tinha um cupinzeiro no fundo do quintal e ali as crianças brincavam...
Corria com os pés descalços pelos pés de bananeiras com a vizinhança, todos da mesma idade... Gostava de ir pra lá, onde a fantasia se transformava, mas tinha sempre a sombra da maldade...
Ela achou que fosse sonho, mas tinha algo errado ali... Era criança, menina e não sabia o que era confiança, mal, bondade... Vivia, comia, dormia e sonhava.
A crueldade ficava por conta dos monstros da televisão, das histórias que seu pai lia pra ela que estavam nos livrinhos de faroeste.
Foi assim, um dia parece que o sol foi-se embora junto do cupinzeiro. Achava que era lá mesmo, mas não foi. Foi num dia de domingo, os homens batiam a laje da casa nos fundos do lote, ela estava lá sozinha no quarto dormindo, sentiu algo estranho no corpo minúsculo de seis ou sete anos, já não se lembrava mais da idade... Incômodo calor ruim, toques rudes aqui e ali... Um barulho qualquer de latas caindo, a cortina se abriu a tormenta e o incômodo ruim passou, não sabia o que tinha acontecido por que o sonho ruim tinha passado. Voltou a dormir ou acordar, já não sabia. Levantou-se, saiu correndo para encontrar outras crianças, brincar um pouco mais, mas tinha algo estranho ali, no seu corpo.
Sol, brincadeiras, janelas, o tempo correndo, o esquecimento.
Coralina sabia que algo tinha acontecido... Mas o que era? Não perguntou pra ninguém, isolou a lembrança e o incomodo na memória. Voltou então a ser o que tentava ser: criança observando o mundo com um ponto de interrogação agora latente: o que era então a maldade? Os gritos? A crueldade? Sabia que aquele incômodo que havia passado lhe fizera algo, mas o que? Enxergava a cor das coisas agora, e também via o cinza e o negro das mesmas...
Coralina brincava, tinha os pés agora calçados, um par de chinelos havaiano azuis, que tinha escondido nos pés de bananeiras, sua mãe lhe chama, ela corre e sem mais explicações se vê atrasada para a escola... Mas o que é escola? Sem respostas... Toma banho, calça os chinelos, come alguma coisa e sai... Atravessa a linha de trem, passa pela igreja entra no prédio antigo, que era a escola, muitas outras crianças quietas, sentadas em circulo, começa a chamada: Fernanda, Thiago, João: presente! Coralina... Coralina?Ela ali, perdida olhando a todos sem saber o que responder. Coralina! Ríspido assim... Levanta a mão! Sente uma vontade imensa de chorar, não reconhece o lugar, as crianças, a professora... Engole o choro ali mesmo. Sem ninguém.
Passaram-se alguns dias e a escola mudou. Já não era o prédio antigo mais, era outro, também não tão novo quanto o anterior... Tinha agora um uniforme, um sapato de boneca, meias brancas e alguns cadernos. Sua mãe lhe explicara aonde ia, não sentia mais vontade de chorar por não saber se iria voltar pra casa. Sabia das horas de acordar e ir à escola.
Agora dividia a carteira da sala de aula com outras crianças o que lhe deu um grande e absurdo medo. Mas não podia falar com ninguém o que sentia, não sabia como falar, por isso o silêncio, aliás, o silêncio era sua alternativa com o passar dos anos para tudo que lhe dava medo, tinha aprendido, não sabia como, desde o dia do domingo, do calor ruim. Dividiu a carteira com um menino... Ele falava palavrão, era um absurdo para ela ouvir aquelas palavras, na sua casa não tinha nada daquilo, muito menos no seu mundo de brincadeiras junto da vizinhança humilde e carente que dividia o lote, as brincadeiras e o pouco de comida que tinham. Decepção. Chorava baixinho, com a cabeça na mesa, sem forças para pedir pra mudar de lugar. Era assim, que sua família tinha lhe ensinado a ser, nunca reivindicar nada e chorar baixo, sem incomodar a ninguém. Coralina achava tudo muito estranho no mundo da escola. O recreio, as brigas, as poucas amizades e a crueldades das crianças umas com as outras... Tinha sete anos... Na sala de aula observava a natureza daquelas peças mal formadas de homens e mulheres em miniaturas.
Luana era o nome agora da colega que dividia, agora, o mesmo lugar com ela, era feia na sua pré-adoslescência, corpo quase formado, misturada as outras crianças ainda naquela sala iluminada e cheia de papel crepom encardido. Tirava os seios para fora quando a professora não via e mostrava pra Coralina que olhava envergonhada e sem coragem de olhar e para os meninos que sentavam próximas as duas. Ela dizia que seu padrasto chamava seus pequenos peitos de limãozinhos, Coralina não entendia nada tampouco achava graça naquilo, observava silenciosa a estranha maldade que ficava ali pairando no ar, sabia que aquele lugar não era sadio, não tinha vontade de voltar lá, mas havia uma obediência burra e se calava... Criança não podia querer nada, era levada para lá, na escola e ficava só isso... Crueldade ali tinha idade, grupo e horário: a escola...
Assim foi durante muito tempo... Observando em silêncio, criando saídas, fazendo pequenas amizades, procurando como resguardo sempre as amizades como ela: refugiados, excluídos, meninas feias, maltratadas e esforçadas que as professoras, frutos da ditadura que se ia embora, faziam questão de não incluir ou simplesmente não davam idéia por serem feias sujas e maltratadas. Matilhas de crianças mal queridas que saiam de buracos chamados de casa, que tinha a escola como “refúgio” que não era lá grande coisa, mas que dava certo alívio e alimento durante algumas horas do dia. Os barulhos da saída, o sinal de entrada, debelavam essas matilhas de crianças.
Sentia Coralina que podia ser mais que queriam que ela fosse, mas não sabia como... Lia, escrevia, sonhava, observava. Não queria ser chata, mas sentia profundamente a exclusão que imperava na escola, sempre a mesma: os brancos, os arrumadinhos e os queridinhos, sempre tinham espaço, eram ouvidos, sempre eram selecionados para participarem das coisas... E os feios, sujos e malvados? Onde ficavam? No limbo... Não tinha voz, não eram chamadas para nada, relegadas e condenadas aos cantos da sala, às filas da merenda na hora do recreio com os rostos enfiados nos pratos de alumínio. Era assim sempre, no cotidiano e quando se faziam gincanas ou festas na escola. Com o aval de uma ou outra professora, Coralina tentava mostrar que haviam coisas boas nos relegados. Conseguiu entrar para o grupinho das meninas bonitinhas e queridinhas da escola, aquelas cujas mães fúteis estavam sempre na escola em conversinhas com as professoras e diretoras, sua mãe não tinha tempo pra isso, trabalhava e criava os filhos.
Foi assim durante os anos do ensino fundamental: esforço para se fazer notar como aluna interessada e com algum potencial, os outros: as bonitinhas e arrumadinhas; pegavam carona e exploravam a boa vontade dela e os trabalhos que eram para ser em grupo, geralmente era sustentado por Coralina. Mas não tinha problema, ela via aquilo como uma porta de entrada para um mundo ao qual não pertencia. Em sua casa o trabalho do pai e da mãe mantinha a alimentação, as contas de água e luz e uma pequena TV preta e branca, roupas eles ganhavam de outras pessoas, a mãe trabalha nelas para melhorar um pouco, sapatos? Tinha-os novos uma vez por ano. Livros? Nem pensar, sua mãe se formou por formar em magistério não tinha amor pela profissão e não conseguiu um emprego na área, então fazia salgadinhos pra fora para manter certa dignidade na alimentação da família, o pai motorista, se esforçava para pagar as contas e terminar de construir a casa... Tudo era difícil. Ela queria mais, via as propagandas de TV, via as amigas bonitinhas com roupinhas bonitinhas, era fim dos anos 80 e tudo tinha etiquetas, quem não as tinha não tinha valor.
Foi durante muito tempo um tormento ter de engolir a situação de precariedade que as condições econômicas e sociais impunham para a maioria das pessoas, em especial a Coralina que observava tudo com raiva, mas em silêncio.
Chorava a noite. Sabia que não queria aquela vida, mas não tinha outro jeito era o que tinha, embora milhões de acontecimentos se fizessem ela não se contentava com aquela vida, tinha um pouco de lúdico, mas era pouco, comer com os olhos as vitrines era muito para ela.
Começou assim as ilusões que sonhou, percebia que teria de ralar muito pras coisas acontecerem, não sabia como andar, tudo para ela era difícil, como dizia seu pai: “pobre não podia sonhar!” Engolia isso com raiva. Não tinha apoio, se viu assim o resto de sua vida, “como as pessoas são cruéis!” pensava ela, e assim sendo, aprendeu também a ser cruel. Via aquela corja de homens e mulheres largados a própria sorte num bairro dormitório, iguais na desgraça geográfica, não queria aquilo. Havia uns que andavam fora do limite miserável territorial e conseguia ver alguma coisa além das luzes vermelhas e da linha de trem, outros ficavam lá, jogados e empoeirados pela poluição, pelo vício e pelas crias que cismavam de nove em nove meses nascer, teimosas.
O trânsito que fazia entre as duas cidades todos os dias para trabalhar, era apenas para tentar vingar de si mesmo, odiava aqueles ônibus que levavam uma, duas horas para chegar ao final numa rua fedorenta no centro da cidade, e lá saltavam hordas de imbecis querendo somente um salário pra sustentar a própria burrice.
Ás vezes pensava que não passaria mais daquele dia, pois no trajeto via os carros, apartamentos, possibilidades e oportunidades passando, passando. Indo embora. Pensou várias vezes em acabar com aquilo, com aquele sofrimento. Suicídio? Talvez sim, seria uma porta, mas pelas convicções católicas que tinha tomavam a coragem dela para fazer o que teria de ser feito.
Então saiu daquilo. Foi teimosia, mas durante um tempo deu certo. Coralina ousou ir além, como num passo de mágica, esqueceu tudo de ruim que havia lhe acontecido, as criaturas mal humanas e miseráveis que haviam cruzado seu caminho na infância e adolescência, a brincadeira de criança, os sabores da casa da mãe e da avó, isolou tudo isso. Foi ver o mundo, embora pequeno, mas via uma possibilidade ali.
Tudo, mesmo que isolando as lembranças e sofrimento, achava que era culpa sua: a falta de apoio, de amor, de rumo. Mas teimava. Teimava em não se entregar às rugas, ria de tudo, um riso cínico, sarcástico, daquele riso que se dá quando você se vê arrasado, acabado, cansado de ser maltratado e mal-amado, mas cisma em sorrir como se a salvasse da ignorância habitual, da falta de grana, da falta de abraço e carinho.
Então Coralina via sua vida passar mais uma vez como nos ônibus lá atrás, usava os homens que se aproximavam dela, por que sempre via que tinha algo ali, interesse misturado à obscuridade, e sinceramente ela sabia que nada era de verdade, parecia que vivia num mundo de irrealidade, como uma ficção criada para viver um personagem que ela não gostava, mas que estava ali, disponível para ela, como se a personagem a tirasse daquela carteira nos primeiros dias da escola. Essa personagem a perseguiu durante muito tempo. Dizia: “Graças a Deus ela existe para me curar!”. Ela estava errada, a personagem a comeu inteira. Tomou-lhe a personalidade e a frescura de uma menina periférica que cismava em sonhar. O personagem a tornou cruel e vingativa com ela mesma. Coralina já não existia. Ficou um enorme vazio em seu peito.
Foi assim que ela deu mais um salto na sua teimosia e abriu a janela. O ar estava amarelo como seus dentes, seus sonhos e seus dedos. O rosto recoberto de maquiagem made in china; o sol brilhava frio na janela de seu apartamento alugado e os sons dos lixeiros se misturavam ao som das pragas dos pardais que cismavam em cantar nos fios de luz. Sentiu-se podre, o hálito alcoólico borrifava o espelho com a foto encardida de uma musa qualquer do cinema Americano dos anos 50, como a Coralina que não existia mais. Olhou para sua cama e viu seu homem: negro, gordo e perdido! Olhou mais um pouco, não pensava naquela vida para si, queria tudo e se viu com quase nada, abriu a porta do quarto, foi à cozinha, fez um café... Passou o café aguardando a água baixar na garrafa, paciente, o cheiro imperava no ar...
Olhou a janela e a avenida que corria apressada lá embaixo. Como era ela pobre, como ela se deixou jogada lá atrás, para quê aquela existência? Para quê a infância jogada fora como naquele domingo do calor ruim? O que ela tinha feito para si e para os outros resgatando sempre o medo, a solidão, a devassidão? Pensava em personagens de Caio Fernando Abreu e Nelson Rodrigues, mas não se encaixava realmente em nenhum deles... Só na crueldade, na picardia.
Queria apenas ser amada, como criança, como mulher e como uma puta qualquer, alias, era nisso que havia se tornado: uma puta erudita e mal comida que não cobrava nada, ela mesma pagava pela sua sobrevivência. Tomou o café em pequenos goles. Rumou ao banheiro, infeliz e mal curada da ressaca... A boca de um doce amargo, o coração apertado... Tomou banho, desenhou no box de vidro um coração vagabundo que ia secar depois; na vizinha tocava um Chico Buarque qualquer misturado ao som da panela de pressão.
Entrou no quarto, olhou para a cama... Para seu homem... Sorriu cínica um pouco, ele roncava como um bode velho e bêbado. Era segunda-feira de manhã, não ia trabalhar.
Olhou mais um pouco a janela, respirou fundo... Arredou o lençol de florzinhas amarelas e deitou-se nua ao lado daquele homem que a abraçou: ela sentiu-se ali a menor, melhor, mulher do mundo.
Vi num dia de chuva que alguma coisa poderia ser melhor que a noite...
aquilo que impregna a cabeça dorme agora tranquilo.
Escrevo assim para desfrutar da mediocridade.
Aqui e ali
a qualquer momento...
supro de gritos o silêncio que antes me contaminava
sorrio para sempre...insisto no dia.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Aquilo que não me mata, só me fortalece - Friedrich Nietzsche
a quem há de chegar essa é a frase que engulo todos os dias com um copo dágua.
a quem há de chegar há muito que se foi embora.
a quem há de chegar mais um fraco ditando palavras vagabundas a respeito do amor.
a quem há de chegar que seja mais eterno que duro...
a quem há de chegar para me tirar desse mundo de nuvens vermelhas e chuvas de gelo, quente como um beijo seco de verão.
O nome dela era Márcia, tinha nascido assim, mas sentia que poderia ser Agatha, Myriam assim mesmo com y, Pietra como nas novelas das seis.
Morava no subúrbio, não tinha muitas chances de crescer não... Alias tinha de se contentar porque era sobrevivente de muitas coisas: da fome que atravessou quando era bebê em formação no ventre de sua mãe; da maldição da escola publica, da casa de três cômodos que dividia com cinco pessoas e dos possíveis abusos que provavelmente poderia ter sido acometida, mas que não aconteceram. Não era bonita nem feia, lembrava um pouco o personagem de Macabéia de Clarice. Mas era mais esperta que ela. Pelo menos pensava que era. Não tinha grandes aspirações na vida não. Pensava em ser feliz. Não sabia como, mas pensava que era possível. Estudava, não sabia também porque, mas sabia que aquilo seria importante. Não saía da vidinha que tinha, por que não aprendeu a questionar.
Márcia pensava em tudo: primeiro queria se casar de véu e grinalda na pequena e mofada igreja antiga do bairro próxima a linha de trem; em se tornar uma princesa; em colocar silicone; em viajar e se apaixonar por um estrangeiro qualquer que a tiraria daquela miséria que vivia.
Passava assim os dias e as horas a transitar pelas cidades em que morava indo para o trabalho de faxineira no centro da cidade. Olhava tudo... Pensando no grande dia. Queria ser livre, alias, pensava ela ser livre, até que sempre, o ônibus a tirava desse sonho quando não parava no ponto e a deixava ali: estacada, parada e com raiva. Tinha de caminhar olhando a paisagem vermelha da chaminé da Petrobras que vomitava fogo, ouvindo os barulhos do trem, das fábricas de reciclagem e da neblina de poluição, mas sentia-se viva. Parecia protegida. Chegava em casa e comia, tomava banho, sentava em frente a televisão para assistir à novela: lá tinha uma personagem, negra como ela, mas não era pobre, era uma negra rica, modelo, viajava o mundo e era bem amada.
Ao seu redor, passava o olho e não gostava do que viu: uma TV antiga, uma gaiola com dois papagaios, uma geladeira velha e vermelha, um retrato de Jesus crucificado que mexia os olhos, vindo do Paraguai ou da China, não sabia ao certo. Sabia que podia ser mais que aquele lugar a fazia acreditar que não. Não queria morrer na praia embora o seu cotidiano a empurrasse pra isso.
Namorava, dizia que amava, mas não sabia o que era amor. Tinha um cara que a fazia feliz de vez em quando, feliz no sexo, isso mesmo. Era negro, ralava muito também, via a saída de sua vida na formação de uma família, indo aos domingos na igreja e nas sextas ia pro boteco e jogava sinuca... Era bonito, como os negros pintados por Portinari, lábios grandes, mãos e pés enormes, além da força viril que a fazia fêmea em seus braços. Era o recurso animalesco que a tirava da realidade por vezes, a consumia fazendo-a ferver e depois acabava. E então chegava a segunda-feira, estava tudo de volta.
Conseguiu então, através de um programa de inclusão do governo, estudar numa oficina de artes. Não sabia nada sobre aquilo, mas era de graça, e o tempo que tinha entre as faxinas e a sua ida para casa não iria interferir no curso. Tomou conhecimento de outro mundo que poderia ser uma salvação para ela. Ousou... Foi até lá, queria ver o que era aquelas aulas, além de ser de graça, ganhava o vale-transporte para ir embora.
Quase se via sem fala perante o grupo, lembrou-se do pai que só trabalhava e falava que pobre não tinha vez, o deixou lá atrás: guardado no passado.
Começaram as aulas: história da arte, pintura, desenho, mal sabia o que era aquele universo, pela primeira vez viu coisas bonitas e que não tinha visto antes, esquecia o bairro empoeirado que morava.
Sentia-se valorizada, como nas faxinas que fazia: arrumava a casa dos outros como se fosse a sua, pensava e fazia de conta que aquele luxo todo era seu, deixava tudo como se fosse para ela: limpo, arrumado, harmonizado. Mas ali era diferente: criava coisas no papel e tudo que fazia ficava registrado e notado, de uma forma que não sabia que existia, mas tinha uma fantasia ali, parada, esperando. Começava a se entrosar com a turma: mulheres com depressão e na menopausa; velhos anarquistas e sindicalistas aposentados; adolescentes pirados e perdidos sem rumo; moças que estavam na faculdade e maridos surtados indicados por médicos psiquiátricos e pessoas comuns.
Começava a ver poesia em tudo que a cercava. Viu que aquele lugar feio e vermelho que morava poderia ser belo, poético e caótico. Que o ônibus e o trajeto para a casa eram bonitos também.
Esqueceu-se pela primeira vez dos desafetos e do namorado... Esqueceu da infância medíocre, dos domingos na rua da feirinha e do supermercado abarrotados de gente fazendo compra e do churrasco na laje, da bebedeira do fim de semana e do ônibus lotado na segunda-feira com ar alcoolizado pelos passageiros.
O mundo agora havia se ampliado nas imagens do Renascimento, Barroco, na loucura e questionamentos da arte contemporânea, no cinema de Fellini, Glauber Rocha e nas aulas no Parque Municipal e na Praça da Estação. Sentia o coração se aflorar para um mundo novo, como se abrisse uma nova dimensão de cores, texturas, poesias e criação. Começou a ler e a escrever sobre tudo que via. As faxinas agora tinham ampliado e quase todas as mulheres do condomínio queriam que ela fizesse o trabalho pesado, ela via isso como uma possibilidade maior de entrar um dinheiro para comprar material de pintura, papel, pincéis. Começava a redecorar a casa que dividia com outras cinco pessoas da família, que achava tudo aquilo uma bobagem. Jogou fora a imagem do Cristo que mexia o olho vindo do Paraguai, achava aquilo agora horroroso e kitchen. Até os cabelos que eram tratados com Henê Maru e alisados a força, começou a deixá-los natural black, se sentia bonita assim.
Sabia que seu esforço poderia ser recompensado com conhecimento. Era a primeira a chegar à turma e uma das últimas a sair. Devorava os livros que o professor trazia, pedia emprestado, levava para casa, sentia-se muito, muito feliz. Já pensava em vestibular.
Mas alegria de pobre dura pouco. O programa ficou paralisado por falta de verba. Ela então voltou àquela modorra de antigamente. Tentava manter o ritmo de esforço e criação que imperava há um ano. Queria tudo e tinha pouco, mas o tudo era pouco também: queria só estudar, ter conhecimento. Engolir o mundo da arte porque começava a entender que só ela mantinha viva a presença do homem na eternidade. E sua eternidade se resumia às vezes a oito horas de trabalho braçal, o trajeto dos ônibus que pegava, e a ilusão de um futuro melhor. Futuro não precisava ser muita coisa não: estudar e ter conhecimento, nem precisaria viajar, ficaria feliz se a possibilidade de mudar de lugar, de cidade e de casa fosse uma realidade. Tentava, tentava e tentava, tinha a impressão que tudo estava mudando, mas depois acordava.
Via agora tudo que fazia com uma canseira que não tinha tamanho: fazia tudo que podia, mas parecia que o dinheiro que ganhava não dava para nada. Via que as madames para as quais trabalhavam estavam muito mais ricas e perfumadas e ela sem aumento; o dinheiro não dava pra nada além de comprar comida; a casa parecia mais precária: o amianto do telhado tinha rachado, o piso de taco de madeira estava cheio de cupim, o chuveiro tinha dezenas de fios desencapados, o quintal parecia um depósito de capim, seus desenhos e trabalhos ficavam cada dia mais amarelados e perdidos porque tinha de se virar e não tinha tempo mais para se entregar ao que gostava.
Não tinha mais motivação. Sentia um escárnio grande ao entrar no ônibus de manhã, olhava a todos com desprezo, como se todos eles tivessem culpa de serem burros, de pensar em procriar e ganhar só o pão de cada dia, e ficar feliz com isso. Chorava no ônibus de tanta indignação, e com um agravante: a violência.
O trajeto do ônibus se resumia a Via Expressa e a noite no caminho de volta ele ficava um pouco mais vazio, esperava o horário de pico passar para ir embora, para não ter de encarar aqueles miseráveis com sorrisos e historinhas banais a respeito de seus empregos e da vida dos patrões: sentia-se como se estivesse num navio negreiro contemporâneo.
Foi ai que o infortúnio escreveu mais um capitulo na sua repugnante vida ruim: um assalto! Uma dupla de adolescentes: usando blusas dos Racionais MC´S, de cabelos amarelos, possíveis viciados da desgraça do crack, de armas nas mãos e havaianas nos pés. Anunciaram o assalto. Foram recolhendo tudo que viam: celulares ultrapassados, vale-transporte dos passageiros porque o trocador havia guardado os dele, por sorte sua ou da empresa, no cofrinho do ônibus; sacolas de compras da Marisa e C&A. Espancaram uma senhora que estava sentada no banco da frente porque ela não queria lhe entregar sua sacola de plástico. Os dois fizeram um arrastão no ônibus, além do roubo, a humilhação, pois todos eram iguais na desgraça os passageiros e os ladrões: estúpidos, famintos e viciados. Quando chegaram perto de Márcia para levarem seus únicos dez reais, por que era fim de mês, eles disseram: “Anda sua vagabunda me passa ai tudo o que você tem!” o ódio a tomou inteira, olhou para aquela fôrma mal feita de humano, para aquele rosto coberto de espinhas e os olhos vermelhos de adrenalina e crack, queria matá-lo ali mesmo no piso cheio de chicletes pregado e sujo de terra vermelha do ônibus... Mas teve medo, aliás, o medo a tomou inteira por causa da arma, e das mãos trêmulas do ladrão. Entregou os dez reais para o adolescente magrelo e que se achava o Fernandinho Beira-Mar em sua onipotência marginal. Não carregava bolsa, tirou do bolso a nota mofada e a entregou relutante.
Sentiu ódio demais: não tinha coragem de tirar nada de ninguém, nem quando as patroas lhe davam as sacolas de pães dormidos, sabia que podia levar para casa, mas sempre pedia, numa obediência e honestidade burra que só os pobres são forjados a ter desde a infância. “Como aqueles dois tinham coragem para fazer aquilo?” Coragem. Essa era a palavra que talvez faltasse para tirá-la daquela vida... Daquela desgraça de vida! Pensou que sendo corajosa, poderia ter ido mais além do que a linha de trem, dos ônibus e das faxinas.
Não lembrava de que ela também era fruto de uma desigualdade social e econômica que confinavam a maioria das pessoas a guetos enterrados na poeira e nas periferias sem nada do poder publico. Sentiu-se extremamente desamparada. Os Ladrões se foram, o motorista seguiu viajem até o 18º Batalhão, onde foram desprezadamente amparados pelos policiais de plantão que não fizeram nada além de burrocratizar o procedimento de registrar a ocorrência do roubo, registrar os bens pessoais surrupiados pela dupla. E os dez reais? Pensou Márcia e pela primeira vez ousou perguntar para um dos policia, “não podemos fazer nada!” Ódio latente, choro contido, a vergonha de ser pobre a tomou inteira porque se ela fosse rica e se estivesse num bairro nobre o procedimento seria outro. Engoliu aquilo tudo com mágoa. Chegou em casa duas horas mais tarde, foi a conta dela tomar banho, engolir um feijão com arroz, ovo e tentou dormir pra acordar de madrugada para trabalhar no outro dia, mas não conseguiu.
A indignação era muita, chorou por umas duas horas, pensou, pensou e dormiu.
Cinco da manhã o relógio despertou, era horário de verão, ainda estava escuro, o corpo e os olhos doíam. Um arrependimento de ser pobre a abateu por inteira. Desligou o relógio, virou para o canto da cama velha e dormiu. Pela primeira vez sentia que as rédeas de sua vida lhe pertenciam: não iria fazer faxina aquele dia, não queria encarar o apartamento daquela mulher burguesa e branca que fazia filantropia porque era bom para a sua pele; sentia nojo dela, “mulher porca branca!” pensou, mas ela tinha dinheiro; na sua futilidade ela tinha tudo que Márcia queria: tinha estudado arte, era filha de intelectuais de classe média alta, podia pagar para ir a cinemas, comprar livros, viajar e trabalhava numa ONG, ou seja, dizia que cuidava dos pobres, mas não enxergava o trabalho e a miséria de Márcia. Não iria para lá. Seria pior.
Márcia era negra, mais afrobege que negra, não era gorda nem magra, tinha os cabelos afros e os braços malhados pelas faxinas. Os traços de índio e de negro harmonizam o rosto com marcas de expressão do sofrimento e da desilusão de vinte e poucos anos.
Acordou não falou com ninguém, nem com a avó que estava de pé e com o radinho de pilhas velho na rádio Globo, no inferno do Padre Marcelo. Abriu o jornal, aquele jornalzinho vagabundo de vinte e cinco centavos do dia anterior, tomou um gole de café no copo lagoinha comeu um pedaço de pão com margarina. Leu as notícias de violência contra a mulher, ocorrência de trafico de drogas, sobre o governo e corrupção, lembrou-se do assalto na noite anterior e foi aos classificados.
Vendia-se de tudo, desde celulares, cabelos e dentes de implantes a carros... Negociação de dívidas e retirada do nome do SPC e SERASA, anúncios de mãe de santo e trago seu amor em 72 horas, pedidos de oração, de compra e venda de imóveis e alúgueis, e outros assuntos. Leu então os anúncios de emprego: balconista, cobradora, costureira, caixa de supermercado, nada se encaixava em seus sonhos. Já tinha trabalhado nessas coisas e sabia muito bem como era: oito horas de trabalho, salário mal remunerado, horas extra e mais desilusão. Tinha certa autonomia com as faxinas.
Mais uma página: MUSAS BH, LUX GIRL SCOTH BAR, GPGBH acompanhantes, Relax, Fernanda 23 anos, morena clara, pele macia, beijo na boca sem frescura (31)3422 154...; Teve vergonha de continuar a ler... Mas voltou os olhos para o final da página, tinha dois anúncios: “ACOMPANHANTE DE EXECUT (31) 3275 294... Contrata garotas de 18 a 25 anos c/ boa aparência p/ trabalhar. Zona sul, altos ganhos + benefícios” e o outro: REVENDEDORES (AS) Aqueçam as vendas ganhe dinheiro extra VIRGIN, IRON e HOT GIRL. Oferecemos linha completa de produtos eróticos. Aceitamos cartões VISA e MASTERCARD. (“31) 3082 789...”
Recortou a página e guardou no bolso, foi tomar um pouco de sol, era quarta-feira e não tinha nada para fazer até a tarde. Olhou ao seu redor e pensou nos anúncios, se transformasse em puta poderia ter uma vida mais ou menos pior? Será que teria dinheiro suficiente para poder estudar, comprar roupas novas? Será que ela era bonita o suficiente para ser puta? Será que iriam aceitá-la? Foi até o banheiro olhar seu rosto, sentiu-se bonita, mas não tinha boas roupas que valorizassem o seu corpo para uma possível entrevista para acompanhante. Pensou em pedir a vizinha uma roupa e maquiagem emprestada que a tornasse bonita e se perguntassem para ela a finalidade das roupas e da maquiagem? Será que saberia andar de salto alto? E quanto ao sexo, será que saberia fazer tudo e será que estaria disposta a fazer de tudo o que os clientes quisessem? Eram perguntas que ela fazia o tempo todo... Achou que não teria coragem praquilo, lembrou-se mais uma vez do episódio do ônibus, talvez àquela hora a coragem e escolha fizesse a diferença para sua vida.
Na sua casa não tinha telefone, teria de ir ao bar da esquina no telefone público para ligar e se ouvissem a conversa dela? Os bêbados que ficavam por ali espalhariam para toda a vizinhança a conversa? Será que tinha um cartão telefônico no bolso da calça? Pensou em pedir conselho para alguma amiga, mas quem? Achou que todo mundo olharia torto para ela. No bairro a noticia de que fulana ou cicrana era puta ou garota de programa corria rápido... Pensou na avó, nos irmãos, na mãe. Ninguém se preocupava com ela, a menos que tivesse dinheiro para dar em casa, estava ela em desespero.
Não queria pensar muito nas conseqüências senão ficaria o resto da vida naquele bairro, foi até o portão, num entra e sai daqueles que antecedem a tomada de decisão para a vida inteira. Respirou fundo. Viu sua vida passar como um filme. Olhou a página mais uma vez, era aquilo ou nada, tomou fôlego e foi ao telefone. Discou... Do outro lado da linha uma voz feminina atendeu, Márcia falou com voz embargada: “Alô? qual o endereço de vocês? Tenho interesse no anúncio, vocês parcelam em quantas vezes os produtos para revenda?”
os dias bons estão chegando bem perto, perto...
até que enfim... segue direto, reto sem olhar para trás.
vou deixar tudo bem atrás... lá atrás...
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Até que enfim a madrugada madura e quente chegou...
já nao terei vontade de chorar nem mesmo perder o sono quando o
pesadelo deixar de ser lembrança...
chega de sombras, delirios, expectativas
chega de ficar esperando o que nunca vem...
estou aqui a espera de mim mesma.
A espera de você